Durante a viagem ao Japão, fomos até a Sophia University conversar com os alunos japoneses do curso de Português e Espanhol. Conheci o professor acadêmico Mauro Neves, brasileiro que mora no Japão desde 1994 e decidi entrevistá-lo para saber como é para um brasileiro viver e trabalhar em Tóquio, quais suas impressões, curiosidades e dificuldades! A entrevista ficou excelente, confiram!

1) Professor, quando e por que você decidiu se mudar para o Japão?

 Eu já tinha morado no Japão entre outubro de 1988 e março de 1991, quando estive em Osaka e depois Kyoto como bolsista do governo japonês fazendo minha pós-graduação em História do Japão. Sempre tive uma grande atração pela cultura japonesa em geral. Voltei para o Brasil por motivos particulares, mas fiquei sempre com a vontade de regressar. Aí em 1994 surgiu a oportunidade de vir ensinar português na Sophia University por dois anos. Acabei passando a professor do quadro em 1996 e ficando por aqui de vez.

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2) Conte como é sua experiência de morar no Japão? O que mais gosta? O que não gosta?

Adoro morar no Japão, principalmente pela honestidade e pontualidade com que tudo funciona no dia-a-dia. Além disso é uma tranquilidade viver sem ter que se preocupar com a violência urbana nem as incertezas econômicas. Se eu tivesse que dizer alguma coisa que eu não gosto, seria o fato de que por mais que eu já esteja adaptado ao Japão, a sua cultura e a língua, continuarei sempre a ser visto pelos japoneses como um estrangeiro.

3)   Quais foram suas principais dificuldades ao chegar no país?

Na primeira vez que cheguei aqui, em 1988, sem internet como hoje em dia, a maior dificuldade foi a distância do Brasil e as dificuldades de comunicação com os familiares. No mais não senti nenhuma dificuldade em especial. Quando voltei em 1994 já foi tudo mais fácil, e agora com a rapidez da comunicação nem saudade dá para sentir mais.

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4) Como foi conseguir emprego no Japão? Como funciona a parte burocrática?

 No meu caso conseguir um emprego na universidade não foi difícil. Passei por uma entrevista no Brasil, enviei meu CV e minha tese para serem analisadas e acabei sendo o escolhido. A princípio era um contrato probatório de dois anos. Mas, como acho que acabei correspondendo às expectativas do departamento, acabei passando para o contrato definitivo após dois anos. A burocracia é enorme, mas sempre funciona.

5)    O senhor mora em Tokyo mesmo? Como é a qualidade de vida numa metrópole?

Sim, moro em Tóquio mesmo. Como o transporte urbano tem uma malha excelente, nem preciso nem quero ter carro. Além disso, é possível encontrar-se tudo que se quer em Tóquio, e quando se quer variar um pouco é só pegar um trem e sair um pouco da metrópole para desfrutar de termas ou da natureza mesmo. Não sinto efeitos da poluição, exceto a sonora que é um pouco difícil, mas não onde moro, que é uma área domiciliar, embora bem perto de um dos centros de Tóquio, Shinjuku. E o melhor de tudo é não haver violência urbana a nenhuma hora do dia! E lojas de conveniência abertas 24 horas por todo o lado. (rs)

6) O que você mais admira nos japoneses? E o que acha que eles podem melhorar?

O que eu mais admiro nos japoneses são três qualidades que a grande maioria deles têm: honestidade, pontualidade e gentileza. O que eu gostaria que mudasse na grande maioria dos japoneses é que eles conseguissem ser um pouco mais relaxados, porque o estresse é o que faz mais vítimas nesta sociedade.

7) O que você mais sente falta no Brasil?

 Dos amigos e dos familiares, mas nada de especial do país.

8) Como você se sente ensinando português para os japoneses? Tem alguma dificuldade por parte dos alunos?

 Eu adoro dar aulas, não só de português, mas também da minha área de investigação, que é cultura popular, e de História do Brasil. Os alunos japoneses já não são tão aplicados como quando cheguei por aqui, mas continuam sendo muito educados e respeitadores. Talvez minha maior dificuldade ao ensinar a língua portuguesa para eles seja que, devido ao sistema de trabalho japonês, a maioria não tem interesse pelo que está estudando, porque não vai usar no futuro, e isso faz muitos dos alunos ficarem desmotivados. No Japão se escolhe a universidade pelo nome e o que esse nome pode contribuir na hora de conseguir um bom emprego, e não por alguma vocação do que se quer fazer no futuro. E claro que também há os alunos que escolhem português porque no futuro querem poder trabalhar em alguma companhia japonesa que tenha representação no Brasil, ou ainda porque querem trabalhar de alguma forma ligados à comunidade brasileira no Japão.

9) Tem alguma curiosidade para nos relatar? Diferenças culturais pelo qual passou?

É engraçado, mas nunca passei pelo que se costuma chamar de choque cultural… Talvez porque sempre tenha procurado aprender muito sobre a cultura e os costumes japoneses mesmo antes de chegar ao Japão. Há apenas duas coisas que ainda me chamam a atenção. A primeira é ver senhoras já de uma certa idade vestidas completamente de roupa rosa e carregando fotos ou outros objetos de ídolos japoneses bem mais jovens que elas ou de cantores pop coreanos também bem mais jovens que elas. A segunda é ter que conviver com muitos japoneses que idolatram tudo que é americano, apesar de tudo que os Estados Unidos fez e continua fazendo para este país, principalmente em Okinawa.

Um caso engraçado seria contar como ainda existe preconceito contra estrangeiros nas imobiliárias japonesas. Nas vezes que precisei procurar um apartamento para alugar oi sempre a mesma coisa: primeiro o choque por eu ser estrangeiro é saber se vou conseguir falar ou não japonês, depois a preocupação se tenho ou não fiador. Depois de confirmado que tenho fiador, e só então, é que me mandam sentar. Quando descobrem que trabalho como professor na Sophia, já que ser professor no Japão é algo muito respeitado e que a Sophia é uma universidade de renome, oferecem finalmente chá!(rs). Mas mesmo assim, quando escolho um apartamento, a imobiliária telefona para o proprietário para saber se aceita um estrangeiro, e mesmo eu entendendo toda a conversa, age como se eu não estivesse presente, e sai explicando que sou estrangeiro, mas pareço honesto e decente, tenho fiador e trabalho na Sophia como professor! (rs) Mesmo assim há proprietários que não aceitam alugar para mim, apenas por eu ser estrangeiro.

Isto em Tóquio, em pleno século 21 e as portas das próximas Olimpíadas! E isto também é o Japão! Costumo dizer que o Japão é a sociedade do biombo, ou seja, como já era no Período Heian, tudo é possível, desde que não seja em público e que se mantenha a harmonia do geral em detrimento do sacrifício do particular. Quem consegue se adaptar e conviver com isso vindo de outra cultura, torna-se parte dela. Quem não consegue, acaba se achando sempre ignorado, perseguido ou discriminado, o que em grande parte é culpa do próprio estrangeiro que não faz o mínimo esforço para compreender como funciona a sociedade japonesa. Na minha opinião se o estrangeiro escolheu viver aqui, ele é que tem que se adaptar ao Japão e não o contrário.

10) Você voltaria para o Brasil ou pretende ficar no Japão?

Pretendo ficar no Japão, porque já construí muito aqui nesses 25 anos, sou respeitado e gosto de viver aqui. E posso sempre visitar o Brasil, quando sinto vontade.

Abraços e obrigado,

Mauro Neves

SOBRE MIM

Priscila Kamoi é formada em Administração e Marketing pela Baldwin Wallace University. Trabalhou durante 7 anos no mundo corporativo e após câncer, largou a carreira corporativa para ter uma vida com mais propósito, liberdade e felicidade. Viu o blog como uma forma de unir tudo o que ama: viajar, ler, escrever, fotografar, moda, comer, culturas e pessoas. Já teve seu olhar por 24 países até agora e possui mais de 60 roteiros de viagens.Viajante, empreendedora e nômade digital por opção SAIBA MAIS

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